top of page

Alice e o seu Jaguadarte

  • 21 de jun.
  • 5 min de leitura

Inicialmente, preciso falar da Alice para que vocês possam compreender o contexto. Eu sou apaixonada pela história da Alice no país das maravilhas, da Disney, e por isso comprei o livro de mesmo nome, de Lewis Carroll - coleção DarkSide. 


O livro conta sobre um rapaz chamado Dodgson, nascido em 27 de Janeiro de 1832, em Cheshire, Inglaterra. Ele era professor de matemática e fotógrafo. Dodgson, com 24 anos, era amigo de uma família que tinha uma filha chamada Alice Liddell, de 4 anos. Ele promoveu diversos passeios de barco e piqueniques por cerca de 7 anos com a Alice e suas duas irmãs. Após o primeiro ano de convivência, Dodgson entregou para a Alice o primeiro livro que trazia suas histórias. Mais tarde, este livro foi transformado na famosa história da Alice no país das maravilhas. “Alice é como a concha que encostamos na orelha para ouvir o barulho do mar”, dizia Dodgson que passou a usar o pseudônimo Lewis Carroll. Ao ler o livro com os olhares de hoje e não daqueles do ano de 1865, é compreensível que a mãe da Alice tenha proibido estes contatos, principalmente diante das fotos que Dodgson tirava das meninas semi-nuas, especialmente quando elas assim desejavam.


Oi??????  Hoje, certamente ele seria preso!


A Alice que trago aqui é a mesma do livro, mas é também a Alice da Disney e a Alice que eu sou e que talvez você seja também. Então, aqui tomo a liberdade de criar uma nova Alice com elementos de todas estas quatro Alices.  


Alice tinha cerca de 4 anos quando tudo começou. Ela percebia o mundo de uma forma diferente, mas não havia muito espaço para que o mundo conhecesse a sua versão dele. Ela acreditava que o mundo não estava preparado para ouvir o que ela tinha a dizer. Então a Alice tentou ser "normal". Para não dizer que aquelas situações que vivia eram absurdas demais, ela silenciava. Alice foi tida como tímida, mas mais tarde ela descobriu que este era só mais um rótulo que lhe deram, mas que não era a verdade sobre ela. 


Ela não tinha espaço para dizer o que pensava, mas ela pensava muito. Este pensamento preso na cabeça lhe fizera apresentar vários sintomas. Não tanto quanto a Rainha de Copas, que tinha um cabeção, mas algo semelhante. Ela tinha bronquite, sinusite, chorava a toa e tinha uma vontade de sair correndo quase patológica.


Quando Alice entrou na adolescência as regras da sociedade a sufocavam muito e ela não aguentou mais. Como não havia espaço para se expressar, ou pelo menos ela não conseguia encontrar estes espaços, ela acabou entrando em uma crise, um buraco muito profundo e ficou por muito tempo caindo nele. 

“O poço era muito fundo ou ela caiu muito devagar, pois teve tempo de sobra, enquanto caía, para examinar ao redor e antecipar o que estava por vir. Primeiro tentou olhar para baixo, para ver onde ia, mas a escuridão não permitia distinguir qualquer coisa. Olhou para as laterais do poço e reparou que eram revestidas de armários e estantes; aqui e ali, havia também mapas e quadros pendurados em cavilhas.” (Carroll, 2019, p. 36)

Ela caiu muito, por quilômetros, até chegar em uma sala com várias portas. Qual abrir? Quais destas portas ela teria a chave? Qual destas portas seria do seu tamanho? A adolescência é este cenário de um corredor de muitas portas mesmo. Ainda hoje, aos quarenta e tantos anos, Alice ainda se vê experimentando portas. Algumas vezes ela abre a porta certa, mas nem sempre.


Menina de vestido azul em sala circular escura cercada por muitas portas, com clima de mistério.

Alice queria tanto pertencer que passou a se encolher para caber e depois a ficar grande demais. Isto aconteceu tantas vezes que ela não mais se reconhecia. A situação tomou forma quando a Lagarta tirou o narguilê da boca e perguntou com voz lânguida e sonolenta: - “Quem é você?”. Esta pergunta é tão perspicaz que acho difícil Alice responder ainda hoje, com seus 40 e tantos anos de idade. Entretanto, Alice, meio tímida, respondeu naquela época com a sinceridade que lhe falta nos dias de hoje.


“No momento não sei muito bem, senhor. Até sabia quem eu era quando acordei hoje cedo, mas acho que mudei várias vezes de lá para cá.” (...) “Além do mais, ter vários tamanhos diferentes em um dia só é muito confuso.” (Carroll, 2019, p. 72)

Acredito que a Alice, mesmo adulta, ainda tenta se organizar nestes vários tamanhos que precisa ter em um mesmo dia. Ainda é muito confuso para ela, mas ela vem aprendendo a lidar consigo mesma e hoje consegue dizer um pouco mais sobre quem ela é. Isso não a impede de se questionar várias vezes ao dia se ela está do tamanho certo.


O ponto alto do filme é quando Alice descobre que tem o destino de matar o grande Jaguadarte. Alguns dizem que ela não é a Alice certa e ela mesma está convencida disso. Como assim, ela que foi pequena demais, depois grande demais e agora tenta se ajustar novamente em um novo mundo “normal”? Agora ela precisa se reconhecer forte o bastante para matar o grande Jaguadarte. No filme, o Chapeleiro Maluco diz que a Alice perdeu a sua “muiteza”, ou seja, a sua essência. Você escutaria em alguns vídeos no Instagram que este sentimento se chama “Síndrome da Impostora”, mas a Alice não deu ouvidos a isto. Ela realmente se sentiu pequena demais para enfrentar o seu Jaguadarte. Devo deixar claro que cada Alice tem o seu Jaguardarte, seja um concurso, uma promoção, um casamento, uma maratona, tirar carteira de motorista, abrir seu próprio consultório e tantos outros. Mas o fato é que todas as Alices recusam no primeiro momento esta nova empreitada, o seu Jaguardarte.


Tendo negado o desafio, Alice ficou tranquila. Continuou seguindo o seu “normal”, mas o problema é que ela nem desconfiava que saber do Jaguardarte já lhe colocaria no caminho dele. Alice fez uma releitura da sua história e pensou que, talvez, o mundo esteja sim preparado para ouvir os seus pensamentos agora. Ainda mais, se o mundo não estivesse preparado, talvez ela deveria então preparar um novo mundo. Ela começou a soltar um pensamento aqui e outro ali e se surpreendeu como eles floresciam. Alguns pensamentos estavam presos por tanto tempo que lutavam para não sair. Haviam se acomodado. Ela precisou da ajuda da Rainha Branca para isso. É importante dizer qur toda Alice tem uma Rainha Branca para lhe encorajar. Seja uma mãe, uma irmã, uma amiga ou simplesmente uma parte misteriosa da sua consciência que luta por ser ouvida diante de tantas Rainhas Vermelhas que gritam dentro da sua mente: corte-lhe a cabeça!!!


Ao longo da caminhada, a Alice foi descobrindo a sua “muiteza”, como se diz no filme. Ou seja, ela foi descobrindo que é capaz de enfrentar sim o seu Jaguardarte. Ela, no auge dos seus 40 e tantos anos, ainda não sabe, mas ela é muito mais do que isso, é uma verdadeira Rainha e o seu castelo está lhe esperando para que seja governado.


Assuma o seu castelo, Rainha.


Referências


Caroll, Lewis. Alice no país das maravilhas. Rio de Janeiro : DarkSide Books. 2019.


ALICE no País das Maravilhas [filme]. Direção de: Tim Burton. Estados Unidos: Walt Disney Pictures, 2010. (https://www.disneyplus.com/pt-br/browse/entity-072d2f34-c99e-4bf7-a342-a1b30a03b2e7)





 
 
 

Comentários


bottom of page